Penso Logo Sou Preto

Penso Logo Sou Preto

       Subjetividade é o processo pelo qual algo se torna constitutivo e pertencente ao indivíduo de modo singular, ou seja, aquilo que o identifica como SER. Essa construção é elaborada a partir de ações e pensamentos. Assim, aqui estabelecemos uma lógica racional que Descartes certamente aprovaria. Para construir subjetividade, é necessário o pensamento, e se eu penso, certamente eu existo.

       Nos últimos 11 meses, dediquei-me minuciosamente ao estudo da construção da subjetividade do negro no Brasil. Logo nas primeiras entrevistas exploratórias, a frase que mais ouvi foi: "Eu demorei anos para entender quem eu sou" / "Foi muito tempo para saber que eu era bonito" / "Hoje eu sei que posso ser o que eu quiser". Freud aponta que, para a consolidação do ego (sua percepção sobre si mesmo), é necessário que nos primeiros anos de vida exista uma rede de apoio que fortaleça isso, com elogios, cuidado e carinho. Quando isso não ocorre, há uma quebra de identidade afetando toda a percepção.

     Ora, em um sistema como o nosso, onde o belo é estabelecido pelo padrão europeu branco, já sabemos onde a autoestima do negro vai parar... Em mais de 300 anos de escravidão, o negro foi tratado como animal no Brasil, privado de toda possibilidade de pensamento. Ao fim, com a farsa da lei áurea, teve que fazer adequações para ser aceito. Neusa Santos, em "Tornar-se Negro", diz que o desejo do negro é ser desejado pelo branco. Aí começam as adequações de roupa, a busca por se encaixar em rodas e ambientes brancos, e mais uma vez o pensamento crítico, que lhe dá a existência, se vai com uma busca frustrante por aceitação.

       Temos um próximo movimento, que Fanon apontou cirurgicamente, quando o negro percebe que, independentemente do que faça, NUNCA será branco. Ele volta essa força motriz para raiva ao sistema, a revolta, a revolução, mas ainda assim não está em autonomia.

      Ficheiro:02 Frantz-Fanon-lors-dune-conférence-de-presse-du-Congrès-des-écrivains-à-Tunis-1959.jpg  – Wikipédia, a enciclopédia livre       Por isso, eu proponho: PENSE. LOGO SE TORNARÁ NEGRO. Este ano, tive o prazer de conhecer vários pretos e pretas advogados(as), concursados(as), médicos(as), empresários(as), psicólogos(as), enfim... Intelectuais da mais alta excelência. E sabe o que notei neles? Todos fizeram o processo de abandono do trauma. Ferenczi mostra que um trauma só pode ser superado após sua elaboração, ou seja, é necessário PENSAR e REFLETIR, e a partir dessa dor criar novas possibilidades.


Henrique Rollo

Jeferson Natã

Psicólogo, psicanalista, especialista em ensino e aprendizagem.
Músico de apartamento, produtor de vídeos que ninguém assiste.

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